Mântua: cidade de transformação
Descobrir Mântua significa percorrer o famoso Percurso do Príncipe, um eixo viário que atravessa o coração da cidade, ligando, de norte a sul, as duas obras-primas da dinastia Gonzaga: o Palácio Ducal e o Palácio Te. Este itinerário não é apenas um passeio arquitetónico, mas uma verdadeira viagem no tempo que acompanha o desenvolvimento urbano do antigo povoado romano através das suas três muralhas, hoje testemunhas invisíveis de uma metamorfose contínua.
O passeio começa na zona de fundação etrusco-romana, dominada pela majestosidade da Praça Sordello. Aqui ergue-se o Palácio Ducal, um “palácio em forma de cidade que, desde 1328, se tornou o símbolo do poder dos Gonzaga. Ao passar pelo sugestivo Voltone di San Pietro, entra-se no núcleo medieval e municipal, onde a vida citadina pulsa entre as arcadas renascentistas da Piazza Erbe e da Piazza Broletto. Entre palácios públicos e joias como a Rotunda de São Lourenço e as Peixarias de Giulio Romano, o percurso cruza o canal Rio, o antigo limite da segunda cerca amuralhada.
A última parte do itinerário dirige-se à zona de expansão renascentista, passando pela Casa de Mantegna e pelo Templo de São Sebastião, até ultrapassar o limite da terceira muralha da cidade. O grande final está reservado para o Palazzo Te, a incrível vila suburbana construída por Giulio Romano. Outrora rodeada pelas águas do Lago Paiolo, esta obra-prima do Maneirismo continua a representar o auge da hospitalidade e do lazer dos Gonzaga, encerrando em grande estilo um itinerário único no mundo.
As Peixarias de Giulio Romano
As Pescherie de Giulio Romano são o único edifício público construído pelo artista em 1536, por encomenda de Federico II Gonzaga. Sob as arcadas que formam uma ponte sobre o Rio decorria o mercado. Ao lado, estavam previstos armazéns de alimentos: à sua direita, o armazém de peixe, e à sua esquerda, o armazém de carne, com o antigo matadouro público, as Beccherie.
A presença de um curso de água facilitava o transporte e o comércio e permitia também eliminar facilmente os resíduos, tornando-o num dos mercados mais limpos da época.
Do lado direito da rua, pode observar o revestimento decorativo original da estrutura em “bossas” que Giulio Romano também utilizou no Palazzo Te. Por outro lado, as arcadas à sua frente são o resultado de um restauro e, em parte, de uma reconstrução. No lugar das três últimas arcadas erguiam-se a Igreja e o Convento de São Domingos, dos quais resta hoje apenas o campanário. A igreja, muito imponente, foi encerrada na época napoleónica e transformada em armazém de carnes. As Peixarias permaneceram ativas até à década de 1940, enquanto os Matadouros foram demolidos em 1877 e o convento em 1927.
As Peixarias de Giulio Romano albergam uma das sedes do Heritage Centre Mantova e Sabbioneta, um espaço distribuído por vários locais que conta a história deste sítio reconhecido como Património Mundial e um espaço onde se pode compreender a profunda ligação da cidade à água.
A Cidade do Príncipe
Para lá dos limites do Rio, estende-se a cidade com as suas ampliações renascentistas. Recomendamos que percorra a Via Principe Amedeo. Desta forma, caminhará ao longo do Percurso do Príncipe, que atravessa a cidade e liga o Palácio Ducal ao Palácio Te, a residência pública à residência privada dos Gonzaga. Ao longo da rua, encontrará numerosos palácios históricos pertencentes a famílias nobres que faziam parte da esfera de amizades dos Gonzaga e que, com a beleza e o luxo das suas residências, contribuíam para enriquecer toda a cidade e granjeavam as boas graças dos senhores de Mântua.
No final desta rua, encontrará locais emblemáticos da cultura renascentista, não só de Mântua, mas também de Itália, como a Casa de Mantegna, com o seu pátio cilíndrico, o Templo de São Sebastião, projetado por Leon Battista Alberti, o Palácio de São Sebastião, que acolheu os famosos Trunfos de César pintados por Andrea Mantegna, e o Palácio Te, obra-prima do génio criativo de Giulio Romano.
Sabbioneta: cidade de fundação e cidade-fortaleza
Para conhecer Sabbioneta, é conveniente seguir um percurso que permita apreender a harmonia do traçado da cidade.
Sabbioneta, uma cidade de fundação (urbs condita), foi construída entre 1556 e 1591 a mando de Vespasiano Gonzaga. Vale a pena dedicar algum tempo a percorrer, sempre que possível, a linha exterior das muralhas da cidade, que constituem a fronteira entre a cidade e o território e servem de defesa contra ataques externos. Durante séculos, Sabbioneta foi considerada um modelo perfeito de praça-forte militar: Cidade do Príncipe, mas também Cidade-Fortaleza. A muralha que circunda Sabbioneta, com cerca de 6 a 7 metros de altura em relação aos terrenos circundantes, tem a forma de uma estrela de seis pontas. Atualmente, ainda se encontra quase totalmente intacta, rodeada por um fosso que realça a sua natureza defensiva.
Construída por Vespasiano Gonzaga segundo o modelo romano.
O traçado viário está disposto de acordo com o antigo esquema do acampamento romano, com ruas ortogonais que delimitam 34 quarteirões. No centro histórico, encontram-se todos os edifícios que caracterizam uma corte aristocrática: o Palácio Ducal, para o governo da cidade, o Palácio Giardino, com a Galeria dos Antigos, para o lazer, e o Teatro all’Antica, para os espetáculos da corte.
Vespasiano Gonzaga, que projetou o traçado urbano de Sabbioneta, adotou algumas medidas, como o traçado em ziguezague das ruas, para criar um efeito de ilusão de ótica que fazia com que as ruas parecessem virtualmente mais longas. Assim, Sabbioneta apresenta-se como um complexo labirinto concebido para desorientar o inimigo e tornar a ação defensiva mais eficaz, mas sobretudo para dilatar o espaço, fazendo-o parecer maior do que realmente é.
Heritage Centre de Mântua e Sabbioneta, Património Mundial
Este espaço tornou-se a sede do Heritage Centre difuso do sítio de Mântua e Sabbioneta. No seu interior, uma mesa multimédia narra o desenvolvimento urbanístico de Mântua e Sabbioneta, destacando a natureza complementar das duas cidades: a primeira, uma cidade estratificada; a segunda, uma cidade de fundação.
Poderá ouvir a vida de Vespasiano Gonzaga contada em primeira pessoa pelo seu retrato, os seus sonhos e a sua visão sobre a fundação de Sabbioneta.
Praça Ducal
Para além de ser um centro de poder político e administrativo, a Piazza Ducale é o local do mercado e, por conseguinte, do comércio e das trocas. Tem uma forma perfeitamente retangular e é ladeada por alguns edifícios importantes de Sabbioneta. O Palácio Ducal serve de palácio de representação e de residência do Duque e, outrora, estava ligado por passadiços aos edifícios adjacentes, incluindo o Palácio del Cavalleggero, onde se situavam os gabinetes auxiliares. Em duas salas do palácio, Vespasiano mandou instalar a “Libreria Grande”, uma biblioteca infelizmente hoje completamente dispersa, que albergava obras de autores clássicos e tratados modernos sobre geometria urbana e engenharia militar.
Nos arredores do Palácio Ducal
Atrás do Palácio Ducal encontra-se a Igreja da Bem-Aventurada Virgem Coroada, mausoléu da família Gonzaga. Entre os palácios senhoriais, encontra-se a Igreja de Santa Maria da Assunção; nas imediações, situa-se a pequena Igreja de São Roque. Ao nível do rés do chão dos edifícios privados, abre-se um longo pórtico com silhares rústicos de mármore branco, onde se realizava o mercado.
Praça D'Armi
A Praça de Armas representa a antiga praça do castelo e era o centro da vida privada de Vespasiano Gonzaga. O castelo ficava onde hoje se situa a escola e era uma verdadeira fortaleza, rodeada por um fosso largo e profundo, ligado à praça por uma ponte levadiça. Através de uma passagem estreita e coberta, sustentada por arcos, o castelo estava ligado ao complexo do Palazzo del Giardino, que segue o modelo das vilas suburbanas, mas se insere, no entanto, dentro das muralhas da cidade.