Quando se pensa no subsolo da região das Marcas, vêm imediatamente à mente as grandes cavidades naturais esculpidas na rocha, como as famosas Grutas de Frasassi. Mas não é a única história possível. Ao lado destas paisagens moldadas pela natureza, existe outro mundo menos evidente, construído pelo homem ao longo dos séculos. Um sistema composto por túneis subterrâneos, ambientes escavados no arenito, cisternas, passagens escondidas e espaços que acompanharam a vida das cidades das Marcas, muitas vezes sem serem notados.
Aqui em baixo não encontrará paisagens espetaculares no sentido mais imediato, mas lugares que se compreendem caminhando por eles. Espaços criados para necessidades concretas – conservar, defender-se, movimentar-se, recolher água ou rezar – e que hoje se revelam pouco a pouco através de percursos guiados e visitas aos subterrâneos da região das Marcas. Um património histórico e cultural que conta a vida quotidiana das comunidades locais de uma perspetiva invulgar.
Nesta viagem, levamo-lo precisamente até lá: por baixo das cidades, aos pontos onde a paisagem muda sem dar nas vistas. Basta descer alguns degraus para perceber que o que se vê na superfície é apenas uma parte da história. Uma viagem à descoberta das cidades subterrâneas das Marcas, entre lugares escondidos, arquitetura hipogea e testemunhos do passado ainda pouco conhecidos.
Osimo: uma cidade sob a cidade
Chega a Osimo e tudo lhe parece claro: um centro acolhedor e elegante, onde as distâncias são curtas e as coisas são compreendidas à primeira vista. Caminhe entre praças e palácios e terá a sensação de ter tudo sob controlo. Depois, descobre que por baixo existe quase outra cidade. E o mais surpreendente é que não é preciso imaginá-la: pode realmente entrar nela.
A partir da entrada das Grutas do Cantinone, junto ao posto de turismo na Via Fonte Magna, comece a descer acompanhado por quem conhece bem estas passagens. Bastam alguns degraus para mudar de ritmo: a luz diminui, o ar fica mais fresco, os ruídos ficam lá em cima. À sua frente não encontra uma simples gruta, mas um primeiro troço de um sistema muito mais amplo: o percurso visitável estende-se por algumas centenas de metros, mas faz parte de uma rede subterrânea que, no seu conjunto, ultrapassa os nove quilómetros e se desenvolve em vários níveis.
Estes espaços não nasceram todos ao mesmo tempo. O subsolo foi escavado, ampliado, reutilizado durante séculos: para a água, para conservar os alimentos, para se deslocar sem ser visto, para encontrar refúgio. Os poços ligavam os diferentes níveis, traziam ar e luz, ligavam o que estava abaixo ao que estava acima.
No percurso do Cantinone, encontrará principalmente figuras e símbolos relacionados com a dimensão religiosa e a vida quotidiana. Noutros ambientes, menos acessíveis, a linguagem muda: torna-se mais complexa e menos imediata e introduz uma simbologia que, ao longo do tempo, levou a pensar em encontros reservados e rituais. Nas grutas privadas, que só podem ser visitadas em determinadas ocasiões, aparecem símbolos como a Tríplice Cinta ou a cruz de oito pontas, que os estudiosos relacionaram com a presença, no território, de ordens como os Templários.
Até a história mais recente passou por aqui. Durante a Segunda Guerra Mundial, estas galerias voltaram a ser refúgios reais, e entre os sinais mais antigos ainda afloram nomes e datas deixados às pressas.
Lá em baixo, a temperatura permanece fresca durante todo o ano: com uma camisola de lã e calçado confortável, pode deslocar-se sem distrações, deixando que os espaços falem por si.
A visita às Grutas do Cantinone dura menos de uma hora, mas o tempo aqui em baixo é sentido de forma diferente. E quando regressa à superfície, fica a sensação de ter visto apenas uma parte de algo muito maior.
Camerano: quando o subsolo se torna arquitetura
Em Camerano, a entrada para as grutas fica na praça, entre casas e lojas. Entre por ali, sem procurar nada escondido, e alguns metros abaixo a aldeia muda completamente de forma.
Sob o centro histórico, estende-se uma rede subterrânea de cerca de dois ou três quilómetros, com um percurso visitável de cerca de um quilómetro. Aqui não encontrará simples túneis, mas ambientes cuidadosamente construídos: salas, corredores, abóbadas, detalhes que fazem pensar mais em espaços pensados do que funcionais.
Ao caminhar, percebe que cada ambiente tem a sua própria identidade. As paredes são trabalhadas, as alturas mudam, aparecem colunas, nichos, decorações. Não é um subsolo "bruto": é um lugar que, ao longo do tempo, assumiu uma forma cada vez mais definida.
As funções sobrepuseram-se. Refúgio, armazém de comida e vinho, local de encontro, por vezes espaço de culto. Algumas salas sugerem reuniões reservadas, outras momentos mais coletivos. A presença de símbolos religiosos e esotéricos alimentou hipóteses e histórias ao longo do tempo. Durante a Segunda Guerra Mundial, estas grutas voltaram a ser abrigos. Mais uma vez, o subsolo tornou-se um espaço necessário.
Também aqui se entra acompanhado e se permanece no subsolo durante cerca de uma hora. O ar é fresco mesmo em pleno verão, com cerca de 14 graus: entre escadas e passagens irregulares, mover-se com calma e com roupas adequadas ajuda a captar verdadeiramente o sentido dos ambientes.
Piagge: um hipogeu acolhedor, entre símbolos e silêncio
Em Piagge, no município de Terre Roveresche, tudo muda de escala. Aqui não encontrará uma cidade subterrânea extensa como em Osimo ou Camerano, mas sim um espaço único, acolhedor, quase escondido.
Descendo por baixo das muralhas da povoação, a cerca de sete metros de profundidade, entra-se, juntamente com o guia, num ambiente escavado no arenito, onde a temperatura se mantém constante em torno dos 15 °C. Depois de uma curta escadaria de tufo, encontra-se um espaço que lembra, pela sua estrutura, uma pequena igreja: uma nave central, uma abside e braços laterais que se abrem perpendicularmente. As dimensões são pequenas, mas a sensação é clara.
As origens do hipogeu não são totalmente claras: supõe-se uma construção medieval, embora alguns elementos remetam para uma tradição mais antiga. A falta de documentos deixou espaço para diferentes interpretações, mas a estrutura e as decorações levaram muitos estudiosos a considerá-lo um local de culto, provavelmente utilizado por pequenos grupos, de forma reservada.
As paredes e o teto conservam símbolos simples, mas significativos: figuras geométricas, flores estilizadas, cruzes. Sinais que remetem para o cristianismo primitivo, quando a linguagem religiosa ainda se misturava com símbolos mais antigos. Alguns motivos, como a flor de seis pétalas ou o lírio, repetem-se várias vezes e acompanham o olhar ao longo do espaço.
Com o tempo, também este ambiente mudou de função. Em épocas posteriores, foi usado como armazém e, durante a Segunda Guerra Mundial, voltou a ser um refúgio. No entanto, a sua estrutura, que permaneceu intacta, continua a sugerir um uso acolhedor, quase isolado.
Também aqui não se entra sozinho: passo a passo, o guia ajuda a ler um espaço que, à primeira vista, pode parecer simples, mas que revela muito mais à medida que se observa. Parando ao centro, será natural olhar para o teto: é um espaço pequeno, mas é aí que tudo se concentra.
Fermo: a água, organizada com precisão
Em Fermo, basta descer abaixo do centro histórico para perceber que aqui o subsolo funciona de forma diferente. Não tem de imaginar ou interpretar: move-se num espaço que se compreende imediatamente.
Ao entrar nas cisternas romanas, começa a caminhar entre salas que se sucedem com uma regularidade quase hipnótica. Trinta salas dispostas em filas paralelas, ligadas por arcos e cobertas por abóbadas de berço: depois de alguns passos, percebe que não está num espaço "escondido", mas num sistema construído para funcionar. Não é por acaso que este é um dos maiores e mais bem conservados complexos hidráulicos do mundo, projetado de acordo com princípios que também remetem para as indicações de Vitrúvio.
As paredes contam tudo. O betão romano, o reboco impermeável ainda perfeitamente legível, as canalizações, os poços de ventilação: cada elemento permaneceu quase intacto e permite compreender como a água era recolhida e feita fluir de uma sala para outra, sem dispersões.
Não procure o pormenor curioso, mas observe o conjunto. A repetição dos espaços – uma sala, depois outra, depois mais outra – fará com que compreenda o funcionamento de todo o sistema e, com ele, a organização da cidade, capaz de distribuir a água mesmo à distância.
Com o tempo, estes espaços mudaram de função várias vezes. Graças à temperatura constante, foram utilizados como adegas para o vinho, depois como espaços de serviço e, entre os séculos XVI e XIX, também como prisões. Durante a Segunda Guerra Mundial, tornaram-se abrigos antiaéreos: se prestar atenção, ainda encontrará palavras como "calma" ou "saída" ao longo das paredes, traçadas para orientação em momentos em que as pessoas simplesmente procuravam proteção aqui em baixo.
Monsampolo del Tronto: sob as casas, outro nível de vida
Em Monsampolo del Tronto (AP), o subsolo não se apresenta como um único grande espaço, mas como uma rede mais compacta, diretamente ligada às casas e à vida da aldeia.
Sob a colina de Terra Vecchia, desenvolve-se um percurso subterrâneo de cerca de 120 metros, articulado em vários níveis e a uma profundidade que varia entre 5 e 15 metros. Entre túneis, passagens, escadarias, divisões de tijolo e troços escavados na rocha, toma forma um sistema que ligava as adegas e os palácios nobres das famílias Guiderocchi e Malaspina.
A função é imediatamente compreensível: conservar alimentos, armazenar vinho, aproveitar a temperatura e a humidade constantes. Mas não é só isso. Algumas passagens também serviam como vias de fuga, ligações ocultas entre edifícios, espaços a utilizar em momentos de necessidade. Se prestar atenção, reconhecerá detalhes muito concretos: nichos, fossas circulares usadas como silos, pavimentos em calçada, pequenas divisões que contam a história de um uso quotidiano e contínuo.
Aqui não encontra um projeto único, mas uma estratificação de intervenções. Os espaços mudam de forma, adaptam-se, ligam-se entre si quase espontaneamente, seguindo a estrutura da aldeia acima.
Também neste caso, será acompanhado por um guia que o ajudará a orientar-se entre ambientes que, por si só, seriam mais difíceis de ler. Em vez de procurar uma estrutura geral, é natural concentrar-se nos detalhes. Veja como os espaços são feitos, como se ligam entre si, como os materiais e as formas mudam: são todos elementos que contam a vida da aldeia.