O coração de Perúgia: praça IV Novembre
Perúgia é uma cidade articulada. Articulado é o seu desenho urbano, em forma de estrela, com os bairros da cidade estendendo-se ao longo das cristas das colinas, seguindo a direção das portas principais das antigas muralhas.
Articulada é também a sua história. Além de ter sido uma importante cidade da confederação etrusca (partes das muralhas da cidade dessa época ainda são visíveis), Perúgia foi um dos municípios medievais mais florescentes da Itália central, antes de passar para a dependência do Estado pontifício, símbolo do poder temporal dos papas de Roma.
Articulado, de acordo com muitos perugianos, é também viver em Perúgia, por causa dos muitos relevos íngremes sobre os quais a cidade se estende, ligados hoje por elevadores e escadas rolantes. No entanto, são os próprios perugianos que admitem que as muitas atrações da cidade e a inegável beleza que permeia o núcleo mais antigo e o campo circundante tornam a vida em Perúgia particularmente estimulante e convivial.
No centro de tudo, desde a fundação de Perúgia na antiguidade, está a praça IV Novembre, sede milenar do governo da cidade e do mais importante local de culto, a Catedral de São Lourenço.
As águas da esplêndida Fontana Maggiore, toda de mármores, bronzes e relevos, fluem no meio da praça, deixando uma memória indelével em quem observa a perfeita harmonia de formas e materiais, antes de entrar nos espaços interiores da Galeria Nacional da Úmbria, poucos passos mais a sul.
Galeria Nacional da Úmbria
A Galeria Nacional da Úmbria preserva a maior coleção em Itália de obras de artistas da Úmbria, bem como uma coleção notável de outras áreas da península.
Foi em 1879 que o Palácio dos Priores, sede do governo municipal de Perúgia desde o final do século XIV, foi escolhido para acolher um museu dedicado às obras-primas artísticas daquela que então se chamava Pinacoteca cívica.
Seguindo a exposição, que ocupa dois dos pisos superiores do edifício, percorrem-se mais de sete séculos de história da pintura e da escultura, do século XIII ao século XX.
Alguns dos nomes mais representativos da arte figurativa italiana de todos os tempos são celebrados nas salas do museu, como Duccio di Buoninsegna, Beato Angelico, Piero della Francesca, Orazio Gentileschi, Piero Dorazio e Alberto Burri, só para mencionar alguns dos mais famosos.
Particularmente rica é a série de obras criadas pelos dois mais famosos artistas perugianos do Renascimento: Bernardino di Betti, mais conhecido como o Pinturicchio, e Pietro di Cristoforo Vannucci, conhecido como o Perugino, mestre de Rafael e orgulho da cidade, a quem a rua principal do centro histórico de Perúgia, Corso Vannucci, é dedicada.
A Rocca Paolina e a cidade subterrânea
Considerando a localização geográfica de Perúgia, situada nas íngremes colinas da Úmbria, não deve ter sido fácil para os arquitetos e pedreiros empregados pelo Papa Paulo III construir aquela que, em meados do século XVI, era considerada uma das estruturas defensivas urbanas mais impressionantes e inexpugnáveis de toda a Itália: a Rocca Paolina.
A história conta que, depois de derrotar, em 1540, uma insurreição popular liderada pelo clã Baglioni, família aristocrática histórica e influente de Perúgia, as forças militares do Papa Paulo III ocuparam a cidade, que permaneceria nas mãos do Vaticano até à Unificação da Itália.
Como demonstração de poder, bem como para deixar uma marca concreta e visível da nova dominação, Paulo III ordenou a demolição dos edifícios e casas propriedade da família Baglioni, localizados na colina Landone, a sul do centro histórico, para expandir e fortalecer as muralhas defensivas de Perúugia com uma nova fortaleza gigantesca, que nunca foi realmente usada para fins militares.
Hoje, a Rocca Paolina oferece um passeio subterrâneo pelas entranhas de Perúgia: a maioria dos caminhos e percursos internos foram fechados por tetos e coberturas. Caminhar pelos corredores ciclópicos, nus e escuros, e pelos íngremes túneis da Rocca Paolina, ligados por um moderno sistema de escadas rolantes, revela-nos uma face menos conhecida da identidade perugiana, um lado sepultado no subsolo, testemunha surpreendente e inesperada de episódios do passado. Aqui, ninguém deixará de reparar no "Grande Negro", a imponente escultura cinética de Alberto Burri, situada no Salone delle Acque. Antes de chegar ao complexo de São Pedro, quarta etapa deste itinerário, vale também a pena visitar o complexo cisterciense de Santa Giuliana.
Basílica de São Pedro
Continuando a partir da Rocca Paolina ao longo de Corso Cavour, afastando-se do centro medieval de Perúgia, chega-se à Porta de São Pedro, também conhecida como Porta Romana, porque era um acesso histórico para quem vinha da Cidade Eterna.
Trata-se de arco de acesso das muralhas de Perúgia, requintado e monumental, em homenagem à igreja de São Pedro, localizada a poucos passos mais a sul, fora das muralhas da cidade.
Um alto e elegante campanário em forma de cúspide torna a Basílica de São Pedro reconhecível a partir dos diferentes pontos panorâmicos que dão para este bairro, situado numa das pontas estreladas sobre a qual está desenhada a urbanística de Perúgia.
Imersa na vegetação do campo da Úmbria, apesar da sua proximidade com o centro da cidade, a igreja de São Pedro faz parte de um mosteiro mais amplo onde diferentes épocas, com os seus respetivos estilos arquitetónicos, deixaram marcas da sua passagem.
No interior da basílica, ladeada por um claustro renascentista, revelam-se dezenas de quadros, principalmente dos séculos XV e XVI, entre os quais se destacam, nas paredes da sacristia, cinco pequenas pinturas do Perugino retratando outros tantos santos, que faziam parte de um políptico agora desmembrado.
Antes de regressar ao ar livre, é aconselhável observar cuidadosamente a mestria com que a madeira do coro do século XVI foi entalhada, atrás do altar-mor. Chega a hora de fazer uma pausa gulosa e ir à Casa do Chocolate e Museu Histórico Perugina.
Casa do Chocolate e Museu Histórico Perugina
Entre os armazéns industriais e centros comerciais do bairro de São Sisto, na periferia sul da cidade, encontra-se um dos tesouros turísticos mais visitados e apreciados pelos gourmets e amantes de doces, a Casa do Chocolate e Museu Histórico Perugina.
São justamente as instalações de produção desta marca, que levou Perúgia e a Úmbria às mesas de todo o mundo, que recebem os visitantes estrangeiros, com reserva obrigatória, ao longo de um caminho interativo, que coloca a experiência sensorial e de degustação no centro da visita.
Antes de ver de cima, e em tempo real, o processo de produção da fábrica Perugina, a visita ao museu aprofunda as origens da empresa e a ideia original de chocolate de uma das fundadoras, Luisa Spagnoli. Seguem-se depois as imagens e vídeos dos anúncios que fizeram a história da Perugina, que se alternam com esclarecimentos as consistências, os processos e as variedades de cacau usados para criar os beijos e outros bombons.
O percurso da Casa do Chocolate e Museu Histórico Perugina conclui com uma nota doce, e não poderia ser de outra forma neste "Eldorado" do chocolate: chega finalmente o momento da prova das diferentes criações, umas tradicionais, outras mais recentes e criativas.
Città della Domenica
É aqui que termina esta viagem de dois dias a Perúgia. Em casal ou em família, com amigos grandes ou pequenos, a Città della Domenica (Cidade do Domingo), grande parque de diversões encastrado nas encostas de uma colina nos arredores a oeste de Perúgia, revela várias surpresas em todos os cantos para quem decida entrar pela sua porta.
A Città della Domenica é, antes de mais, um jardim natural, que acolhe dezenas de espécies de animais, alguns exóticos, trazidos para Perúgia de países distantes, outros autóctones dos Apeninos, como o muflão e o veado, e outros ainda em risco de extinção e por isso protegidos neste parque, como o burro de Asinara, originário da Sardenha.
Além das atrações dedicadas ao mundo animal, há também reconstruções de mundos fantásticos que recuperam os contos de fadas de algumas personagens intemporais da literatura e do cinema, como o Pinóquio, a Branca de Neve e a Bela Adormecida, ou que reproduzem ambientes míticos e lendários, como os do Faroeste e da Idade Média.
Um pequeno comboio atravessa todo o parque e o ideal é embarcar nele para alguns momentos de descontração, entre uma diversão e outra ou entre um espetáculo e um laboratório didático.