Caminhar com gosto: descobrir os sabores da Via Francigena no Sul
6 minutos
A Via Francigena no Sul é uma secção do famoso caminho medieval que, partindo de Canterbury, chegava a Roma, estendendo-se depois para sul até Santa Maria di Leuca, na Apúlia. Este troço meridional da Via Francigena, que serpenteia através das regiões italianas do Lácio, Campânia, Basilicata e Apúlia, tem sido historicamente uma rota de peregrinação para os fiéis que se dirigiam primeiro a Roma e depois à Terra Santa. Hoje, a Via Francigena no Sul é também um destino turístico percorrido por viajantes que, além da dimensão espiritual, desejam explorar as riquezas históricas, culturais, naturais e gastronómicas dos territórios que atravessa.
A gastronomia, de facto, representa um importante elemento identitário do território, capaz de contar a história e a cultura de cada região. As diferentes tradições gastronómicas ao longo do percurso francígeno são o resultado de séculos de práticas agrícolas, intercâmbios culturais e influências externas, que moldaram a identidade de cada território, transformando a cozinha local numa chave preciosa para compreender a sua história e alma.
Ao longo das etapas da Via Francigena no Sul, a gastronomia assume um valor simbólico e sustentável, integrando-se num percurso que valoriza o turismo lento. Aqui, o viajante pode parar, descobrir as tradições locais e viver uma experiência autêntica, respeitando plenamente o ambiente e o património cultural. A culinária do sul de Itália, com os seus ingredientes genuínos e receitas transmitidas de geração em geração, torna-se uma expressão da identidade dos lugares atravessados. Além de oferecer prazeres gastronómicos, permite que peregrinos e turistas se conectem profundamente com a história, a cultura e as pessoas da região.
E assim começa a nossa viagem pelas especialidades destas terras.
Produtos típicos e especialidades regionais
Partindo do Lácio, destino por excelência das peregrinações a Roma, encontramos imediatamente dois produtos típicos que distinguem esta região.
O Pão de Genzano, produzido no município homónimo do Lácio, que se encontra na rota da Via Francigena, caracteriza-se pelo seu sabor rústico e crosta escura, símbolo da tradição dos fornos locais que alimentavam os peregrinos ao longo do caminho. Em algumas padarias antigas é possível provar a sua receita original, preparada em antigos fornos que remontam ao século XVII.
Outra iguaria é o Pecorino Romano e outros queijos típicos da região que representam o emblema da pastorícia do Lácio, produtos que mantêm uma forte ligação com a história rural da Francigena.
Se falamos de pratos tradicionais, certamente não podemos deixar de mencionar duas iguarias da região de Roma: o abbacchio alla scottadito e a coda alla vaccinara, preparados com carnes locais, são símbolos da cozinha do Lácio, que os viajantes apreciam pela sua substância e sabor, um encontro entre a cozinha popular e a cultura medieval.
Continuando em direção à Campânia, encontramos a famosa Mozzarella di Bufala Campana DOP e a menos conhecida, mas igualmente saborosa, Ricotta di Bufala Campana DOP. São produtos icónicos da região, apreciados pela sua frescura e cremosidade e perfeitos para acompanhar uma refeição ou para serem consumidos como lanche.
Aqueles que quiserem experimentar alguns pratos típicos da zona de Caserta, o troço que atravessa a Via Francigena em vários pontos, encontrarão várias opções.
A Minestra Maritata, uma sopa rica à base de carne e legumes, é um prato tradicional que reflete a cozinha rústica da Campânia, muitas vezes servida com scagliuozzi (panquecas de farinha de milho de forma arredondada, colocadas no fundo do prato).
Outra menção especial para a Cianfotta, um prato camponês muito semelhante à caponata siciliana, composto por pimentos fritos com alho, cebola, batatas, beringelas, pimenta, tomates e ervas aromáticas, uma verdadeira "mistura", que é de facto o significado do seu nome.
Por fim, as Pettolelle com feijão, massa artesanal acompanhada de um molho de feijão cannellini, são outra especialidade que evoca a tradição gastronómica da Campânia ao longo do caminho.
Continuando para sul, encontramos o pão de Matera IGP, preparado exclusivamente com farinha de sêmola, símbolo da gastronomia da Basilicata e perfeito para acompanhar qualquer refeição.
Outra especialidade é a salsicha lucana, saborosa e picante, que combina perfeitamente com o pimento crusco, um ingrediente típico da região, crocante e com um sabor intenso, uma explosão de sabor quando servido com strascinati, um tipo de massa caseira.
Pratos como a crapiata materana, uma sopa de leguminosas e cereais de origem muito antiga, que remonta ao período romano, e a massa com migalhas e anchovas, um prato simples, mas rico em sabor, são representações autênticas da cozinha pobre, mas saborosa, que caracteriza a região. Estes pratos são uma verdadeira "viagem dentro de uma viagem", em nome da comida genuína de Basilicata.
Finalmente, quando se chega ao calcanhar da bota, pode-se refrescar com o pão de Altamura, conhecido pela sua crosta dourada e miolo compacto, muitas vezes acompanhado por focaccia típica, macia e rica em óleos aromáticos. Se quiser completar a experiência de sabor e fazer uma refeição completa, pode escolher burrata, caciocavallo e ricotta forte, que são apenas alguns dos produtos lácteos da Apúlia que embelezam cada refeição com a sua cremosidade e sabor intenso.
Por fim, o azeite virgem extra, um produto de alta qualidade, famoso em todo o mundo, é inevitável.
No entanto,se quiser experimentar um prato mais elaborado para coroar a experiência gastronómica, não pode perder as orecchiette com cime di rapa, que representam um prato simbólico da Apúlia, onde a massa artesanal encontra o sabor amargo das cime di rapa.
Por último, mas não menos importante, são os vinhos da Apúlia, que acompanham os sabores e gostos genuínos que refletem a riqueza do território e a tradição agrícola da região.
O papel da gastronomia no caminho
A alimentação dos peregrinos ao longo da Via Francigena sempre seguiu uma lógica de necessidade, baseada em alimentos simples, mas nutritivos, que pudessem fornecer energia para a longa jornada. Aqueles que viajavam por esta rota histórica em direção a Roma, ou ainda mais abaixo, até à Apúlia, precisavam de refeições que fossem facilmente disponíveis, fáceis de armazenar e ricas em calorias.
Hoje, ao longo do caminho da Via Francigena, as coisas mudaram, mas não muito. Para os peregrinos, é certamente mais fácil aceder aos pontos de restauração, mas pode acontecer que tenham de atravessar longos troços imersos na natureza.
Também não se deve esquecer que, ainda hoje, os viajantes precisam de muita energia para poderem enfrentar as longas caminhadas da maneira certa e, portanto, as antigas receitas tradicionais que, ao longo dos séculos, caracterizaram a dieta dos peregrinos continuam a ser a escolha número um dos viajantes e são agora um símbolo da arte culinária das regiões a que pertencem.
Mas, quando se fala de comida em Itália e, em particular, ao longo da Via Francigena no Sul, fala-se de um mundo vasto e multifacetado vivido com alegria e espírito de comunidade. Na verdade, não é raro encontrar festivais e eventos enogastronómicos ao longo do caminho. Os eventos da Via Francigena são uma excelente oportunidade para descobrir os pratos típicos da tradição local e viver uma experiência imersiva na cultura gastronómica das regiões em contacto com os habitantes locais e outros viajantes.
Alguns exemplos? Em Genziana, realiza-se todos os anos a Festa do pão caseiro IGP, na cidade metropolitana de Bari, a Festa das Azeitonas e, em Senise, na Basilicata, a Festa do Pimento Crusco.
Valorização e proteção dos produtos locais
Até agora, foi dito que a gastronomia é uma das experiências mais enriquecedoras durante uma viagem, pois permite descobrir a cultura de um lugar através dos seus sabores, ingredientes e tradições culinárias. Cada prato conta uma história, uma ligação com a terra e as pessoas que o preparam.
A proteção e valorização dos produtos locais continua a ser, portanto, um ponto fundamental para a preservação da biodiversidade, das tradições e da identidade de cada território.
A promoção de produtos típicos, muitas vezes ligados a práticas agrícolas sustentáveis, ajuda a apoiar as economias locais e a manter viva a tradição gastronómica.
Quem quiser percorrer a Via Francigena no Sul e quiser desfrutar de uma cozinha feita de ingredientes frescos e receitas centenárias, pode encontrar o que procura nas pequenas aldeias, mas também nas cidades históricas, onde pode apreciar os sabores genuínos e apoiar as realidades artesanais que preservam a tradição.
Em suma, não há mais desculpas, é hora de começar a caminhar, deixando-se guiar pelos aromas e sabores deste esplêndido e antigo caminho.